quarta-feira, 4 de abril de 2012

O muro

O dia 03 de abril de 2012 vai ficar marcado pra sempre na minha memória.

O dia 03 de abril começou para mim exatamente as 2 da manhã. Acordei de madrugada, olhei o relógio, e ainda faltavam 5 horas para levantar. Estas 5 horas que viriam seriam seguidas de algums minutos de sono, uma olhada no relógio, alguns minutos de sono, várias olhadas no relógio, nenhum minuto de sono e o relógio, o relógio, o relógio.

Nunca estive tão ancioso assim na minha vida.

Quando finalmente meu despertador tocou as 7 da manhã, eu já estava acordado, deitado, com o celular na mão, só esperando o sinal para ir tomar um banho e me arrumar.

Vesti minha camiseta do Pink Floyd, arrumei minhas coisas e fui para São Paulo, 7 horas de viagem.

Cheguei ao estádio do Morumbi às 16:05.

Às 16:20 entramos nos estádio, subimos a rampa, compramos uma cerveja e fomos em direção ao portão 6 laranja.

Quando passei pelo portão e vi o palco lá, prontinho, aquele muro branco gigantesco, fez com que a anciosidade desse lugar à euforia. Preciso admitir que quase chorei ali mesmo, sem ouvir uma nota musical, só de ver aquilo tudo já me deu arrepios. Virei de costas para o palco, respirei fundo e voltei a olhar para o palco.

As arquibancadas ainda estavam vazias, podiamos escolher o lugar para sentar, tiramos algumas fotos e nos acomodamos.

Foram 5 horas de espera, entre entrar no estádio e o começo do espetáculo. Conversamos muito, demos risadas, conhecemos pessoas muito legais neste tempo, pessoas de São Paulo, Curitiba, Brasília, pessoas diferentes mas todas com o amor pelo Pink Floyd em comum.

Aos poucos os lugares da arquibancada foram sendo ocupados, a noite foi chegando, os refletores se acenderam.

Projetores ligados, boa música tocando no som ambiente. Até que as 20:50 surge o anúncio que o show seria pontual, ou seja, em 10 minutos um sonho seria realizado.

Apagam-se os refletores, cerca de 70 mil pessoas começam a gritar, lá vem Roger Waters.

Começa "In the flesh", o muro que antes era branco, tem agora imagens dos clássicos martelos cruzados de The Wall. Os primeiros acordes são acompanhados de fogos de artifício vermelhos, se cruzando sobre o palco. Roger Waters finalmente aparece, saúda o público e começa a cantar.

Se antes eu quase chorei de emoção agora não dava mais pra segurar, só quem tem um sonho desses entende o que é isto, ver o seu ídolo ao vivo.

Não existe na terra dinheiro que pague essa sensação. Ao fim de In The Flesh, surge o avião, derruba o muro e causa uma explosão. Todo mundo em pé, aplaudindo, gritando, os mais apaixonados como eu, choravam.

Não existe no mundo, uma produção que faça a junção de áudio, vídeo e performances, no nível que eu vi ontem. Tudo estava perfeitamente em seu lugar.

As projeções ilustravam perfeitamente o que a música queria passar. Aquele muro gigantesco, de cerca de 150 metros de largura por 15 de altura, foi aos poucos tomando forma até se transformar em uma tela de cinema como nenhuma outra existente.

O show inteiro foi absurdamente perfeito, nenhum detalhe negativo, mas os pontos altos foram, o começo apoteótico com In The Flesh, a sincronia do Roger Waters de 2012 com o "pequeno e fudido" Roger Waters de 1980, como ele mesmo se definiu, cantando juntos a belíssima Mother, as 70 mil pessoas cantando Another Brick in the wall com um boneco mais alto que o muro mostrando a caricatura do famoso schoolmaster, o professor repressor do Filme The Wall, Hey You, é um episódio a parte no show, nela, não vemos a banda, vemos apenas um muro, de concreto, enquanto a música toca, mas mesmo assim é ainda um ponto alto do show, Vera e Bring the boys back home foram pra mim um dos momentos mais emocionantes do show, soldados retornando para suas famílias após combater em guerra, tudo devidamente registrado e projetado no muro, ao fim de Bring the boys back home, temos cerca de 1 segundo de silêncio, esse silêncio de 1 segundo precede Comfortably numb, essa, dispensa comentários, essa foi literalmente a cereja do bolo, a ausência de David Gilmour foi sentida, mas em momento algum apaga a grandeza dessa música, mesmo com as belíssimas projeções que tinhamos no muro, eu fechei meus olhos, e ouvi a música inteira chorando, ela sem ser ao vivo, já é pesada, tem uma carga emocional muito forte, ao vivo então eu não consigo descrever o que é aquilo.

Aos poucos o show vai se aproximando do fim e Roger encarna o ditador, suas roupas e gestos já não são mais os mesmos daquele pobre senhor de idade que nos conta seus medos e angústias que o fizeram construir um muro ao seu redor, agora, ele é intimidador, carregando suas armas, uma metralhadora e um megafone. Chegando ao fim, temos The Trial, com uma interpretação digna de premios de cinema a Roger Waters, personagens marcantes desde 1979 compõe um tribunal para julgar Pink, o personagem fictício criado por Waters para contar seus problemas psicológicos.

Até que o muro cai, a cena é linda, passa a sensação de que tudo vai cair sobre a platéia. Todos os músicos vem para a frente do palco e tocam Outside the Wall. Ótima música para a despedida e apresentar os músicos, entre eles Snowy White, Dave Kilmister, G. E. Smith e John Carin, figuras já conhecidas da grande parte dos fãs de Pink Floyd.

Isso foi um pouco da realização do meu sonho, em breve vou postar fotos e vídeos para demonstrar melhor o que foi isso tudo.

Este post está um pouco fora do contexto geral que o blog vinha seguindo, mas eu não poderia deixar essa experiência passar em branco por aqui.

P.S: Esqueci de citar o porco voador, ele foi um espetáculo à parte, chamou a atenção do público até descer e ser devorado pela galera que estava na pista, no corpo do porco entre várias frases de protesto estava escrito em bom e claro português: MUITA FÉ E POUCA LUTA. No fim das contas, o porco faz o link pro contexto do blog.

Abraços, e digo uma coisa, se você tem um ídolo, principalmente assim na área da música, não perca a oportunidade de conferir um show ao vivo. Isso mudou minha vida. Foi sensacional.