Depoimento, em forma de desabafo, de jovem ateu no perfil da ATEA - Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos.
Agora há pouco eu tive uma discussão feia com minha mãe.
Tenho 18 anos, ateu desde os 13. Quando eu tinha 14 anos, que foi a idade que eu saí do armário sem saber o que era preconceito e recém-sabido que a nomenclatura que me definia era "ateu", eu acabei tendo uma discussão com minha mãe sobre isso, em que ela não entendia (e não gostava) por que eu era ateu, me questionava veemente, me impondo que estou errado, que ateu não sabe de nada, que é "à toa" e eu dei meus argumentos primordiais, que todo ateu dá em relação a Deus e religiões.
Aquilo não acabou bem, porque a gente se irritou um com o outro e eu acabei pegando muito ódio dela pelo preconceito que ela demonstrou, e me fez proferir palavras horríveis como "Demorei tempo demais pra dizer que te odeio!"
Ela caiu em lágrimas na hora e eu não tive dó nem piedade, porque o ferimento que ela havia me aberto era grande demais. Dificilmente algum ferimento é tão grande quanto a intolerância, o preconceito.
Fiquei 2 meses sem falar uma palavra sequer com ela. Só voltei a falar porque o meu melhor amigo na época me pediu, como presente de aniversário dele, que eu voltasse a falar com minha mãe. Foi o que eu fiz. Ela ficou feliz da vida, claro, é mãe, e eu soube que ela prometeu a si mesma nunca mais discutir comigo, por nada, porque a experiência de 2 meses sem falar com o filho foi horrível.
Os anos passam e nenhuma conversa em relação a isso, sempre havendo o respeito. Ela e meu pai são espíritas, mas meu pai é bem mais tolerante, nunca me tratou diferente nem nunca veio discutir comigo sobre essas coisas. Ou ele é bem convicto do que acredita ou deve concordar em vários pontos. Realmente não sei, meu pai é e sempre foi misterioso. Ele é inteligentíssimo, e isso me faz me perguntar se ele não duvida (ou duvidou) da existência de Deus, pois ele é omisso demais em relação a isso. Mas minha mãe é diferente típica mãe do século passado, né, conservadora, "inquisidora".
Muito tempo sem conversa, até hoje. Até agora há pouco. É, admito que fui eu que puxei a conversa, fui eu que errei. Deveria ter ficado quieto, pois agora estou com aversão à ela pelo preconceito.
Ela começou comentando comigo, rindo, que tem uma igreja que está prometendo milagres de emagrecer a pessoa instantaneamente em 5kg. Ela achou super engraçado e comentou comigo. Eu ri e cometi o erro: falei que era engraçado sim, mas era mais engraçado ainda como que alguém que acredita que Deus cura cegos, amputados, exorcismo, que acredita em ressurreição ao terceiro dia, pode rir do que os outros acreditam também (é, ela acredita mesmo nessas coisas).
Aí ela se inflou, e começou a discussão. Argumento vai, argumento vem, ela com os típicos argumentos religiosos sobre Deus ser a vida, Deus ser amor, no aperto ateu clama à Deus, etc, etc, etc.
Matei todos os argumentos, alguns com ajuda até das imagens e brincadeirinhas que vocês da ATEA postam. Ela falou que Deus é a cura pra tudo, que queria ver se no aperto eu não clamaria à Deus e eu mandei que se fosse assim, ela não precisaria há uns meses atrás correr pro médico para tratar da crise de rins que ela teve há alguns meses, bastava orar. Aí ela disse que Deus guiou as mãos dos médicos que ajudaram ela e eu disse que isso só mostra que foi o médico que fez algo e não Deus, pois se o médico ficasse parado ou tirasse os equipamentos dela, ela ficaria prejudicada e que mesmo assim, há muita negligência médica e que se Deus guia as mãos dos médicos, seria Deus igualmente negligente?
Aí ela disse que quando há negligência é erro dos homens, erro do humano (contradição?). Entre outros argumentos houve o do "tal" livre-arbítrio, que ela disse que Deus nos fez livres para seguirmos o caminho que optarmos. Falei que só o fato dele ser onisciente (saber de tudo) mata o livre-arbítrio, pois se ele sabe de tudo, sabe o que vamos fazer, saber o que pensamos, sabe que vamos mudar de opinião, sabe que eu viraria ateu e isso quer dizer destino traçado e se o destino está traçado, não tem livre-arbítrio.
Ela bateu na mesma tecla falando que éramos livres, mandei ela pensar bem nisso. Aí não lembro o que ela tinha dito que me fez perguntar "Deus controla a gente então? Você concorda com isso? Deus controla?" aí ela disse que sim (contradição?) e eu perguntei "cadê o livre-arbítrio?". O silêncio pairou...
Aí ela começou a dizer que eu sou ateu, beleza, mas que deveria ficar quieto, não deveria falar pros 4 ventos como faço que sou ateu e eu falei que o que faço no Facebook não é impôr. Ao contrário da religião, eu não vendo certeza, vendo dúvida. Meu objetivo é gerar a reflexão. Não me importa que a pessoa continue acreditando, desde que ela já tenha pensado em ambos os lados e tomado seu caminho. Ao menos assim a pessoa desenvolve respeito pelo pensamento ateísta e o ateu desenvolve respeito pelo pensamento teísta.
Mas ela falou que era pra eu ficar quieto, que eu estava impondo o pensamento dos ateus, que isso não era bom e tudo. Eu falei que isso é opressão. Não poder manifestar pensamento? Isso é opressão, e que se eu não podia falar nada do que eu não acreditava, os cristãos também não têm que falar aos 4 ventos que acreditam em Deus, têm mais é que ficarem quietos. Falei que sou ateu militante, busco apenas a reflexão das pessoas e que não foram nem 1, nem 2, nem apenas 3 cristãos que já vieram pra mim e falaram "mas não é que faz sentido?".
Ela também falou que os ateus são a desgraça do mundo, e eu mandei um argumento parecido com o do Pirulla, falando que a maioria esmagadora da população do mundo acredita em algo superior e que realmente não acreditava que todo o mal do mundo fosse fruto dessa minoria insignificante no mundo.
E eu segui mandando os argumentos, modéstia à parte, bem bolados, frutos de quase 6 anos de ateísmo, sobre a Bíblia, sobre religiões, sobre Deus. Lógico, ela saindo perdendo em todas, e isso prejudicou o "humor" dela, pois ela começou a apelar, e é por isso que estou escrevendo aqui, pra desabafar.
Ela começou a dizer que se arrependia de me ter colocado no mundo, que eu deveria sofrer pra aprender que Deus existe, se arrependeu de não ter me colocado na Igreja bem cedo (olha aí a opressão, eu logo falei isso, e falei que depois é o ateu que tá impondo seu ponto de vista), essas coisas ferem. Me caíram umas lágrimas aqui ao escrever isso. Dói muito. A própria mãe.
Eu leio as mensagens que a ATEA posta sobre jovens ateus sofrendo preconceito em casa e nunca dói tanto quanto sendo com experiência própria. Aí eu perdi a cabeça com tamanho preconceito, tamanha cabeça fechada. Aí já não era mais argumentação. Era qualquer outra coisa. Perdi a cabeça, me senti péssimo, aumentei o tom, falei que tinha pena de gente que não é capaz o suficiente para entender correntes de pensamento simples, pois o ateísmo é simples, sabe, foi horrível.
E agora tô aqui, mal, contando o meu conflito para a ATEA, coisa que pensei que nunca fosse fazer, afinal, minha mãe não conversava comigo sobre isso e eu pensei que tava livre de preconceito em casa.
Estava redondamente enganado.
Um abraço para vocês da ATEA, continuem com o excelente trabalho! Propaguem o ateísmo mesmo, não como imposição, mas para ficar normal, do jeito mesmo que vocês fazem. Continuem gerando reflexão, continuem gerando críticas, continuem abrindo os olhos de mentes capazes de enchergar. Sou fã de vocês!
Walker Marques.
Estou postando este depoimento, com o consentimento do amigo Walker Marques.
Posto este depoimento por que sei que muitas pessoas passam por isto e talvez de certa forma não saibam que não estão sozinhos nesse caminho, mesmo os ateus estando em pequeno número em relação aos que creem.
Só digo para não terem medo de "saírem do armário" como diz nosso amigo Walker, assumir sua posição junto aos demais é o primeiro passo para viver de uma forma mais feliz, isto pode gerar conflitos sim, com certeza vai gerar para a grande maioria, mas não ter vergonha de assumir o que você pensa ajuda a moldar sua personalidade e seu caráter.
MUITO OBRIGADO, à Walker Marques por permitir que eu utilizasse seu texto aqui no blog.
Nota de rodapé:
Pirulla - http://www.youtube.com/user/Pirulla25?ob=0
Foi citado no texto de Walker, é um canal do youtube, interessantíssimo por sinal, abordando assuntos como política, ciência, religião. Vale a pena conferir.
Link para a página da Atea no Facebook: http://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR
Link para o post de Walker Marques: http://www.facebook.com/ATEA.ORG.BR/posts/342504865780102
Nenhum comentário:
Postar um comentário